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É isso, estou sem celular há uns 4 dias. Vivo um dilema inútil demais pra sua leitura, todavia postarei aqui mesmo assim porque, egoísta que sou, escrevo para mim e não para você. Talvez a ausência do bloco de notas me faça escrever aqui o que não estou podendo desabafar pra mim mesmo e não tenho mais nada a escrever a respeito.
Parabéns, Henrique! Começando um texto ofendendo o leitor, dessa vez se superou!
Por uma bobeira de segundos vi meu celular no chão e desde então me pergunto quanto é o preço da burrice, ainda mais por deixar uma tecnologia do tamanho da minha mão afetar tanto minha cabeça. Pois bem, não sei nem por onde começar…
Gastou dois parágrafos que não valem um e começar que é bom, nada. És um paspalho, não sei de onde tirou esse sonho velho de ser cronista.
No longínquo ano de 2014, quase beirando o 2015, recebi aquele que seria o melhor presente de formatura por completar um curso que só não se forma quem não paga as mensalidades ou bate com a cabeça ao andar de bicicleta e morre: um celular de última geração, daqueles que só restava bater as asas e sair voando pra dizer que faz tudo, e seria de grande utilidade ao advogado promissor que estava por vir. Obviamente que nada se concretizou, afinal de contas estou escrevendo num blog ao invés de estudar um grande caso que me daria fama e muito dinheiro.
Nada a declarar, segue.
A primeira lembrança que tenho após receber o celular foi o de mostrar aos meus pais como usar a câmera, no dia seguinte seria a cerimônia da colação de grau (que merece um capítulo à parte e mesmo assim não garanto que seja escrito) e com uma câmera de ponta as imagens seriam muito mais legais do que a da empresa contratada para fazer aquilo com uma disposição ínfima perto do valor pago ao longo dos meses. O advogado promissor esqueceu de um mero detalhe, deixar o tal do telemóvel na mão deles para que pudessem colocar em prática todas as instruções dadas. Estava eu lá, sentado, enquanto a cerimônia rolava e sequer poderia pegar o dito cujo porque a beca cobria boa parte do corpo. Por motivos de segurança já tinha instalado aquele jogo leve de truco que serve para qualquer situação em que o tempo não passa e você não sabe o que fazer numa situação em que não pode nem sair pra tomar um ar. Vez ou outra penso neste dia em como seria uma oportunidade perfeita de usar o gravador de voz, para registro das piadas que eu cochichava com os mais próximos e das broncas que tomava da organização do evento, não me recordo de nenhuma.
Essa do gravador é mentira, não lembro de você ter pensado nisso.
Tenho vários defeitos mas ser curioso é uma das minhas qualidades. Nas férias sempre tirava um tempo pra descobrir as funcionalidades e acredito que deixei uma ou outra no caminho. Desde então, são sete anos gravando o som que tocava no rádio pra procurar em algum site por aí, escrevendo bilhetes e links no bloco de notas, ouvindo podcasts enquanto estava fazendo alguma outra coisa desinteressante e por aí vai. Mas não foram somente as trivialidades importantes que marcaram o período, foi com ele que acabei deixando de usar um notebook, de fato eu fazia daquele celular um computador pessoal e passei a viver em função dele. Se você me conhece da advocacia, muito provavelmente li o seu processo por ele, bem como entrava em contato com os clientes e os tribunais, deixando para o PC somente a necessidade de editar um documento muito extenso e protocolar com aquele pen drive que serve só pra comprovar que eu sou eu mesmo (a tecnologia nos dominou, de todas as formas possíveis). Caso tenha pego a fase do Twitter, até hoje não me acostumei a usar o microblogging-que-está-virando-rede-social-ruim numa tela grande, meus piores tweets certamente foram escritos com as duas mãos no conforto do lar. Indo além, se você é mais um perdido da lutinha falsa (sim, chamarei o pro wrestling de lutinha falsa até o fim dos tempos) provavelmente me viu no projeto "Enfim Tag Team?" e mal sabia que todas as gravações e edições foram feitas em noites como essa, no aparelhinho que vez ou outra travava mas sempre entregava os resultados. Pois é, acho que já deu pra perceber como eu era produtivo mesmo em tempos de fracasso.
Quem vê pensa que foi tudo isso. Mas estou entretido, continue.
E cá estou com ele ainda do lado, dando sinais de vida e apitando por alguma mensagem recebida, mensagem que talvez jamais saiba de onde veio nem qual é o seu conteúdo. Já não sei se escrevi que estou passando por um dilema (escrevo este texto num notebook muito mais antigo, sem bateria e com mal contato na fonte, deve ser a terceira ou quarta vez que reescrevo até aprender a usar o rascunho) que é o que fazer com essa suposta "morte" do assistente virtual. Num primeiro momento fugi da assistência autorizada e fui buscar aquela de confiança (entenda-se: que o pessoal do bairro vai saber onde foram parar caso feche do nada), primeira negativa por ausência da tela nova. OK, o jeito é a autorizada. Chego lá e me deparo com a explicação de que, por motivos de segurança, o celular é resetado e o preço da peça (que a própria empresa produz) custa mais do que metade do valor do aparelho na época, hoje em dia deve ser o mesmo que um semi-novo, mas aí é um puro palpite sem embasamento. Aqui vem o problema: o promissor não usava a nuvem frequentemente e tem muita coisa dos últimos meses sem qualquer registro em outro lugar, entre anotações, áudios, vídeos e até textos difíceis de encontrar. Por ironia do destino não posso acessar os documentos no computador já que, para ter acesso a eles, preciso desbloquear o celular, basta eu digitar a senha na tela. O celular me protegeu de mim.
Oh dó. Era só por isso que você fez um texto enorme? Dramático do caramba.
E nesses trajetos em que caminhava ou pegava ônibus de lá pra cá (não podia pegar Uber pelo motivo que vocês devem pressupor) pensei em questões que me fizeram perder no tempo. Sete anos de lembranças aliados a um retorno ao passado cada vez mais veloz. Me questionei sobre as amizades atuais, sobre como era chegar perto dos 30 não conquistando nada do que havia planejado, a falta de contato com a turma da faculdade apesar de não ser próximo de ninguém, se acertei em viver uma carreira da qual não tenho orgulho, como ainda estou mantendo vivo o hobby pela encenação de luta sendo que sem o celular estou totalmente perdido a quantas anda, por qual motivo não tomei uma atitude com a garota no ensino médio, tentei puxar na memória quando foi que o celular tornou parte da minha existência (não lembro), o que a criança de outrora diria ao ver o adulto de hoje, e caso eu tivesse enforcado no cordão umbilical como quase ocorreu?
Perdeu o foco, fecha isso logo, cara. Por favor, quero dormir.
Num piscar de olhos, tudo branco. Pensei demais, era hora de resetar a mente. Olhei em volta e todo mundo com celular na mão. Era alguém olhando o Instagram, outro respondendo Whatsapp, um terceiro pesquisando algo que não identifiquei por vergonha de me aproximar demais. Cada um com sua tela, e até então era um deles. De repente estou prestes a completar uma semana sem notificações interrompendo minha rotina e não sei se deveria gostar disso. A tecnologia nos tirou do eixo e criou seu próprio ritmo, ritmo este que me deixou afastado de escrever sobre mim há sete anos. De tanto pensar ainda tenho mais algumas à vista: qual é o preço a ser pago pra tentar arquivar o que ficou pra trás? Onde foi que se tornou aceitável um produto moderno não durar mais que uma década? Houve uma ruptura da vida e não estou dando o devido valor? Por qual motivo estou escrevendo tudo isso? Em breve novidades, talvez nenhuma.
Chega, amanhã é dia de acordar cedo e estamos sem despertador. Essa noite te darei uma folga, não terá a insônia que te trazia.